

EU TERCEIRO
01. Aquele primeiro Eu morreu,
Numa tarde fria e chuvosa, Numa lama fedida, perigosa, Onde o inseto lhe mordeu; Numa touceira se perdeu, Entre o bambu e a serpente. 02. O segundo Eu, o valente, Na luta a costela quebrou, No bico da pedra tombou, Diante do réptil pungente. O segundo Eu era outro, Do antigo, bem diferente! 03. O antigo era displicente Amado mas, sem abrigo, Chamavam de demente Sentado, calado e absorto, No primeiro degrau se via, Da grande pirâmide fria. 04. Monumental piramidal Guardando segredo ancestral Que so o tempo o revelaria. Agora já não sou os dois Nada deles antigos eu sou; Tempo correu, ingenuo acordou! 05. Deixando perguntas ao chao O povo se perdeu sem a luz Nas trilhas da própria ilusão. Sem perceber transformação Que tempo no homem produz, Quando à consciência o conduz. 06. Eis que surge um novo Eu, Fechado em numa fortaleza, Sem se entregar à correnteza, Nem ao mundo da esperteza; Não adestrado, nem se rende Ao misticismo dos fariseus! 07. Pelo rigor sendo depurado, Concentrado, atento e focado, No mistério não revelado, Que não pode ser contemplado Pela turba exaltada - o gado, Vacinado como proprio gado! 08. Eu que procura o invisível, que não se mostra à multidão, Que mergulha na interpretação Do sagrado, profundo, indizível; Enquanto o olhar previsível Nao contempla o que está visível! 09. Assim surge o novíssimo Eu; Em busca do sentido ocultado, Além da aparência e do véu, Pois sabe que existe outro céu Por trás do mundo apresentado. Do mundo moderno "marvado!" 10. Não como antes, nem depois; Não é o primeiro, nem os dois, É aquilo que o tempo acendeu. O que morreu não pereceu: Transformou-se numa alegoria; Naquilo que a turba temia. 11. Agora, nova interpretação Da própria existência sombria. Porque Eu, quando se depura, Deixa de ser simples alegria Entrando aguas complexas Da consciência que irradia! 12. E quanto mais o tempo dura, Mais profunda é a compreensão: Duma clara e oculta dimensão Que somente o espírito alcança, Quando abandona a ignorância Na própria boca da escuridão.
Ton Poesia
Enviado por Ton Poesia em 20/09/2026
Alterado em 21/09/2026 Comentários
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